Entre dois rios
Em certa feita, sonhei que carregava um gravador velho na mochila e uma câmera pendurada no peito, como se tivesse recebido a tarefa de registrar alguma coisa que ao amanhecer, já não existiria mais. Não me disseram o quê, só me lembro de caminhar por uma estrada de terra avermelhada com cheiro de capim amassado no ar, de margem úmida, de pedra aquecida e ao longe, eu ouvia água. No começo pensei que fosse um único rio, mas logo percebi, eram dois...
À minha esquerda o Rio das Velhas, largo, antigo, com a água marrom, avermelhada. À direita, quase rente às pedras e às raízes expostas, seguia o Rio Itapecerica, mais curto na voz, mais rápido no corpo, serpenteando entre as margens pronunciando sílabas de vidro. Eu sabia, já dentro do sonho, que aquilo era impossível. Sabia que aqueles rios não podiam estar juntos daquele jeito, tão próximos um do outro, respirando no mesmo vale.
Foi então que entendi que o sonho não tinha sido feito para obedecer às cartografias. Caminhei entre os dois, às vezes eu estava na margem do Velhas, vendo a correnteza abrir seu caminho largo entre barrancos altos e sombras compridas. Em seguida, sem travessia alguma, eu já me encontrava junto ao Itapecerica, ouvindo a água bater nas pedras miúdas, limpa e nervosa. O chão também mudava sob meus pés, numa hora era barro úmido, noutra, era cascalho seco, estalando baixo a cada passo.
levanto o gravador e aperto o botão vermelho...
Gravei o som da água, o rocegar do vento nas folhas, gravei um pássaro que não vi, gravei meus passos. Gravei até meu silêncio. Encontrei árvores nas margens, formando clareiras de sombra, algumas tinham o tronco grosso, escurecido pela umidade, outras finas, jovens, vergando um pouco sobre a água. Em certos pontos, as raízes apareciam para fora da terra, como mãos de anciões segurando o barranco para que ele não desabasse. O capim crescia alto e áspero, entre uma touceira e outra, vi pedras redondas, lisas, antigas de tanta água.
continuei gravando e ouvi vozes...
Eram vozes baixas, tão baixas que no início pensei que fosse defeito do aparelho. Aproximei o gravador da margem do Rio das Velhas. A voz engrossou, funda, arrastada, subindo da água junto com uma memória enterrada. Levei o aparelho para perto do Itapecerica. Ali a voz se partiu em pedaços brilhantes, rápidas batidas de som contra pedra, como palavras ainda por nascer. Não consegui entender o que diziam, mas percebi que os dois rios não falavam a mesma língua. Um parecia lembrar e o outro, chamar.
fiquei parado entre eles, ouvindo...
A paisagem começou a mudar, o céu ganhou uma cor de cobre gasto, as nuvens se moveram para mais perto, tão baixas que quase roçavam as copas das árvores. Senti o vento tocar meu rosto com uma delicadeza fria e naquele instante tive a impressão de que não era eu quem estava gravando os rios, eram eles que estavam me registrando.
Do outro lado da margem, na dobra da sombra, havia um homem sentado sobre uma pedra grande. Não vi seu rosto de imediato, vi primeiro suas mãos pousadas nos joelhos, tranquilas e depois notei que ele também escutava alguma coisa atrás da água, abaixo dela ou antes dela. Aproximei e ele levantou os olhos, fez um sinal curto com a cabeça, como se já me conhecesse.
— Está conseguindo? — ele perguntou.
— Acho que sim — respondi, erguendo o gravador.
Ele sorriu de soslaio.
Sentou-se mais para o lado, abrindo espaço na pedra, sentei também. Dali, eu podia ver os dois rios ao mesmo tempo. O Velhas corria mais pesado, como se transportasse cidades afundadas, vozes antigas, embarcações invisíveis e o ouro de tolo. O Itapecerica seguia por entre as pedras, ferindo a luz com reflexos pequenos e juntos, pareciam duas idades do mesmo corpo.
— Eles sempre se encontram assim? — perguntei.
O homem demorou a responder. Pegou uma folha seca do chão, virou-a entre os dedos, depois deixou que o vento a levasse.
— Só quando alguém sonha direito.
Fiquei em silêncio. O gravador continuava ligado entre minhas mãos.
— E o que é sonhar direito? — perguntei.
Ele olhou para a água.
— É não vir aqui para dominar nada, nem para tirar uma explicação. É vir para ouvir até o que não consegue repetir.
Eu baixei os olhos para o aparelho, como se de repente ele tivesse ficado pesado demais. As vozes continuavam ali, misturadas ao rio e percebi que o gravador talvez não estivesse registrando apenas som, estava recolhendo distância, cheiro, tremor, sombra, o brilho dos seixos, a curvatura do barranco, o modo como o vento interrompia e recomeçava seu caminho entre as folhas.
O homem então pediu que eu fechasse os olhos.
Obedeci.
Quando fechei os olhos, ouvi com mais nitidez. Um rio falava como quem conta, o outro, como quem corta caminho. Um trazia dentro de si o peso do tempo e o outro, a agilidade do instante. De algum modo misterioso, os dois se juntavam dentro do meu peito, como se ali encontrassem uma terceira margem, feita de escuta.
— Agora diga o que vê — falou o homem.
— Não estou vendo. Estou ouvindo.
— É a mesma coisa, se você prestar atenção.
Abri os olhos devagar.
A luz tinha mudado outra vez o céu estava mais escuro e uma faixa pálida, quase prateada, começava a crescer por trás das árvores. Havia no ar o cheiro metálico de chuva antes da chuva, os rios pareciam mais próximos. Levantei-me depressa, com medo de que tudo desaparecesse antes de eu terminar a gravação. Fui primeiro ao Velhas, ajoelhei na margem e inclinei o gravador até quase tocar a água. A correnteza respondeu com um som longo, espesso, cheio de curvas. Depois corri para o Itapecerica e as pedras escaparam um pouco sob meus pés e por um instante quase caí. Inclinei o aparelho de novo a resposta veio em estalos líquidos, pequenas marteladas de luz.
As duas vozes, antes separadas, começaram a se misturar. Não se fundiram por completo; não deixaram de ser diferentes. Mas passaram a conversar numa faixa de som que eu só posso chamar de passagem. Ali o rio largo e o rio pedregoso, a água antiga e a água veloz, a memória e o ímpeto se tocaram. E compreendi, sem palavras, que estava ouvindo dois lugares geograficamente distantes ocuparem o mesmo instante.
a luz do gravador começou a piscar...
Desespero de sonho é diferente do desespero acordado: a gente sabe que está perdendo algo, mas não sabe se corre, se reza ou se apenas olha pela última vez. Apertei o aparelho contra o peito como se pudesse alimentá-lo com meu próprio pulso. As vozes falharam, voltaram, cresceram um segundo, depois sumiram. O vento parou, os pássaros se calaram e até a água pareceu prender a respiração.
Olhei para trás, procurando o homem da pedra.
Ele não estava mais lá.
Só então percebi que as margens também começavam a se afastar. O Velhas retornava ao seu corpo imenso, para longe. O Itapecerica recolhia sua pressa para dentro das pedras. Entre os dois abria-se um vazio de mapa, uma distância correta. Tentei correr de uma margem à outra, mas o chão mudou. A terra virou névoa baixa e meus pés já não encontravam firmeza e antes de tudo desaparecer, ouvi uma última coisa que veio do próprio gravador, uma frase curta, rouca, quase engolida pelo chiado: Guarde o que ainda respira.
acordei com a mão fechada, apertando o vazio...
Por alguns segundos não soube onde estava, o quarto ainda carregava a sombra do sonho e o coração batia como se tivesse corrido uma longa distância. Demorei a perceber que não havia gravador, nem câmera no meu peito, nem lama nas barras da calça. Levantei, fui até a janela. Lá fora, a manhã começava comum, indiferente, sem saber de nada. Não sei dizer se era lembrança, imaginação ou resto de sonho preso no ouvido. Mas desde aquela noite, quando penso no Rio das Velhas e no Rio Itapecerica, não consigo mais imaginá-los separados por completo. Alguma parte deles continua se tocando em mim, num lugar que não aparece em nenhum mapa e às vezes, quando o vento passa por árvores muito quietas ou quando escuto água batendo em pedra, sinto de novo aquela urgência antiga: a vontade de gravar antes que o mundo se desfaça. Talvez seja isso que o sonho queria. Não me explicar os rios, mas me tornar, por algumas horas, a margem onde eles podiam se encontrar.

