O nome da queda
Andar sempre me pareceu uma forma discreta de desabar, tipo: o corpo se adianta, perde o eixo, corrige a própria ruína no último instante e faz dessa correção repetida uma aparência de firmeza, como se houvesse algo de naturalmente soberano em atravessar a rua sem beijar o chão. Mas não há soberania alguma nesse gesto, apenas treino, necessidade e uma longa intimidade com a iminência. Ninguém caminha porque venceu a gravidade, caminha porque aprendeu a negociar com ela, e toda negociação séria deixa marcas no corpo, principalmente quando o mundo já chegou repartido antes do primeiro passo.
A cidade gosta de fingir que o chão é o mesmo para todos, essa vasta mentira mineral sobre a qual se levantam prédios, códigos, vitrines e bancos, mas basta olhar um pouco melhor para ver que a calçada distribui os seus favores com discernimento de classe e memória de conquista. Há pés que avançam com a serenidade antiga de quem se sabe acolhido pela forma das coisas, e há pés que entram na rua como quem entra num idioma hostil, medindo o espaço com uma prudência cansada, porque o risco não vem só do buraco, do carro ou da pressa, mas também do olhar alheio, da suspeita pronta, da ordem policiada que se derrama sobre certos corpos com a facilidade com que a sombra cai no fim da tarde. A pessoa que vai ao escritório e a pessoa que entrega a comida do escritório não caminham na mesma cidade, ainda que partilhem o mesmo asfalto. O primeiro atravessa uma paisagem que confirma sua passagem, o segundo cruza uma engrenagem que se alimenta do seu desgaste e ainda chama isso de oportunidade, com a velha compostura dos regimes que aprenderam a dar nomes limpos ao que vive de sujar os outros.
Por baixo de cada avenida corre uma história menos elegante do que a superfície admite. O capitalismo nunca foi apenas um cálculo, sempre foi também uma geografia armada, uma maneira de fazer o corpo de muitos sustentar a leveza de poucos, e esta terra conhece bem a coreografia desse abuso. Houve mãos arrancadas do próprio tempo para que outras aprendessem o luxo da demora. Houve paisagens inteiras rebatizadas para que o saque pudesse usar a máscara da fundação. Houve povos empurrados para a margem do mapa e depois acusados de viver à margem, como se a violência que os cercou fosse defeito deles e não método do mundo. O que chamam de progresso ainda pisa sobre esse fundo mal enterrado, e o seu caminhar tão seguro depende dessa contabilidade obscena em que uns herdam o chão enquanto outros herdam o cansaço. Marx viu com clareza que a riqueza traz no ventre o corpo expropriado que a faz nascer, e Fanon soube que o império não se contenta em explorar, porque também precisa escrever na pele dos vencidos a justificativa de sua rapina. Por isso a rua nunca é apenas rua, é também arquivo, sentença, triagem e teatro.
Talvez seja por isso que me pareça tão pobre a fantasia de um mundo único entregue pronto à percepção dos corretos. O real jamais teve essa disciplina, cada corpo entra nele por uma abertura distinta e compõe o espaço segundo a fome, o medo, o desejo, a memória e a posição que lhe coube dentro da guerra permanente que organiza a vida social. A lição mais aguda não está em afirmar que há muitas visões do mesmo chão, mas em perceber que essas visões não se equivalem porque algumas foram erguidas com o poder de nomear e outras foram coagidas a viver dentro de nomes dados de fora. Compreender o outro, neste continente, quase sempre significou reduzi lo a uma tradução conveniente, arrumar sua diferença até que ela coubesse no inventário do vencedor, e ainda chamar de encontro essa mutilação bem administrada.
Ainda assim, há no ato de caminhar uma espécie de recusa silenciosa que nenhuma ordem consegue absorver por completo. O trabalhador que atravessa a cidade antes de amanhecer, a mulher que volta tarde calibrando o corpo contra o medo, o homem negro que mede cada gesto porque sabe que o mundo já lhe preparou uma leitura, o indígena que pisa uma terra cercada pelo vocabulário da propriedade sem esquecer que a terra existia antes do registro e do cartório, todos eles conhecem uma ciência do desequilíbrio que não se aprende nos tratados. Sabem que continuar de pé não é prova de harmonia, sabem que o passo não dissolve a violência. O corpo cai para a frente, corrige o desastre, insiste, e essa insistência tem alguma coisa de profundamente histórica, porque carrega ao mesmo tempo a marca da dominação e a recusa de ser reduzido a puro efeito dela. Há uma inteligência do joelho, do tornozelo, da sola gasta, uma inteligência sem prestígio e sem monumento, que compreende melhor o mundo do que muita filosofia acostumada a pensar a matéria do alto de escadas polidas por mãos alheias.
No fim, andar talvez seja isso, a confissão involuntária de que não existe inocência no equilíbrio. Todo passo recompõe por um segundo a trégua impossível entre força e ferida, entre o mundo que nos empurra e a parte de nós que ainda não aceitou cair do modo como esperavam. A cidade prossegue, distribuindo luz, fadiga, mercadoria, vigilância e esquecimento com a sua competência de máquina antiga, mas sob esse movimento geral permanece o fato bruto de que ninguém toca o chão fora da história e de que a história, quando encontra um corpo, não o encontra jamais em paz. Caminhar é então uma arte triste e magnífica, porque faz do quase tombo uma permanência, da precariedade uma forma, da vida nua um trabalho de composição incessante. E se há alguma dignidade nisso, ela não está na ilusão de domínio, mas na persistência severa com que tantos trabalhadores seguem atravessando um mundo erguido contra eles, adiando com músculos, memória e fúria o momento em que a queda receberá, enfim, o nome que sempre teve.

