Quando a terra canta
Encontrei menos um filme para ser visto e mais um mundo para ser escutado à luz das cosmovisões, confluências e ideias que brotam do lado de cá do Atlântico.
Há alguns dias, assisti de novo o documentário nũhũ yãg mũ yõg hãm: essa terra é nossa! de Isael Maxakali, Sueli Maxakali, Carolina Canguçu e Roberto Romero, e saí do filme, mais uma vez, com a sensação de que rever, talvez não seja o verbo exato, não é um filme para ser apenas visto, é para ser escutado de um jeito mais fundo, com menos pressa, com menos desse costume moderno de achar que compreender o mundo é enquadrá-lo, medi-lo, nomeá-lo e seguir adiante como se tudo estivesse resolvido. Voltei ao filme depois de leituras recentes sobre cosmovisões, sobre pensamentos que brotam do lado de cá do Atlântico, pensamentos nascidos das margens, das aldeias, dos quilombos, das beiras de rio, das matas, das travessias, das bacias imensas que formam nosso corpo território, como o Amazonas e o São Francisco. Leituras que me devolveram uma pergunta simples e devastadora: quantas vezes o pensamento colonial nos ensinou a olhar para a terra sem, de fato, escutá-la?
Talvez por isso nũhũ yãg mũ yõg hãm: essa terra é nossa! tenha me chapado de outro modo agora. O que mais me ficou, desta vez, não foi apenas a brutalidade já evidente da espoliação, da mata ferida, dos rios atingidos, dos bichos afastados, do território comprimido pelo apetite sem fundo do chamado desenvolvimento. Tudo isso continua ali, duro, incontornável. Mas o que mais ressoou em mim foi o canto que não é apenas detalhe do filme, trilha, camada sonora que acompanha a imagem. O canto ali não acompanha absolutamente nada, ele compõe, estrutura e territorializa. Ele é parte da própria existência daquele mundo. Dizer isso parece simples, mas não é. Estamos acostumados a um cinema em que a música entra para reforçar o que a imagem já está dizendo. A trilha comenta, conduz, prepara, adoça, pesa a mão no afeto. Nessa obra, o canto não vem por cima da cena, não embeleza a paisagem, não ajeita a emoção do espectador: O canto ali, é paisagem sonora porque faz o território falar, não está separado da terra, dos corpos, da memória, dos antigos, dos rastros, dos seres e das forças que atravessam aquele chão.
Foi impossível rever o filme sem pensar que uma das maiores tragédias do pensamento moderno foi ter separado tudo para melhor dominar. Separou a natureza e cultura, corpo e espírito, terra e gente, economia e memória, arte e vida. E, uma vez separado, tudo pôde ser reorganizado como recurso. A terra virou ativo e o rio virou insumo. A mata virou obstáculo e quem ali sempre habitou, virou problema. O território virou mapa e como sempre, uma grande fantasia do poder: limpo, reto, silencioso, sem bicho, sem memória, sem encantado, sem canto, sem gente demais.
E faz justamente o contrário! O filme suja o mapa com mundo.
O que ele devolve não é uma paisagem para contemplação, é território espesso, vivo, golpeado. É por isso que o canto ali não é enfeite, ele não entra no filme para deixá-lo mais bonito, mais emocionante ou mais sensível. Está como expressão de um mundo que continua existindo apesar do cerco. Um mundo que não se resume ao que aparece diante da câmera. Um mundo em que a terra não é apenas superfície, é presença.
Foi inevitável, nesse retorno ao filme, que o pensamento de Nego Bispo me viesse com força, como chave, como ferramenta de escavação. Porque Nego Bispo fez algo raro, nestes tempos desenvolvimentistas: ele não apenas criticou o desenvolvimento; ele arrancou a máscara dessa palavra. Mostrou que, por trás de sua aparência técnica, limpa, civilizada, o desenvolvimento quase sempre operou como máquina de separação. Desenvolver, visto das margens, visto de regiões violadas, é quase sempre (des)envolver: tirar do laço, desfazer a trama, romper vínculos, arrancar o mundo de sua reciprocidade para transformá-lo em mercadoria, cálculo e algorítimo.
Diante disso, a ideia de envolvimento ganha uma outra potência. E talvez seja essa uma das chaves mais fecundas para se aproximar, porque o filme, no fundo, não trata apenas de posse da terra. Ele trata da possibilidade de seguir existindo com a terra. Não se trata somente de reivindicar um espaço nos marcos do direito do invasor, embora essa luta também importe. Trata-se de afirmar uma relação que o mundo colonial, capitalista, não consegue compreender sem antes tentar destruí-lo. O canto, então, aparece como um dos grandes operadores desse envolvimento. Religa os vivos aos antigos, religa o presente a uma memória que não está morta. Religa o seu povo ao seu território e religa a imagem ao que nela não cabe por inteiro, a luta a uma dimensão cósmica, sensível e comunitária que escapa completamente à lógica do desenvolvimento. O que o discurso hegemônico chama de atraso, o filme revela como densidade. O que o poder chama de improdutivo, o canto devolve como mundo.
E talvez mundo seja mesmo a palavra decisiva aqui. Porque o que está em jogo em nũhũ yãg mũ yõg hãm: essa terra é nossa!, não é apenas a luta pela terra, embora isso seja central. O que está em jogo é uma disputa de mundo. De um lado, a lógica brutal que transforma tudo em recurso. De outro, uma forma de existência em que a terra ainda é relação, ainda é memória, ainda é presença compartilhada. Em que os antigos não estão encerrados no passado. Em que os rios não são apenas cursos d’água. Em que a mata não é decoração verde para consciência ambiental que vende. O canto aqui não é performance, é continuidade.
A palavra confluência também me parece incontornável. Talvez porque ela diga muito do que o filme realiza sem precisar explicar. Nada ali está isolado. A política não aparece de um lado e a cosmologia de outro. A luta não está separada da memória. O território não vem apartado dos espíritos, dos bichos, dos cantos, dos corpos e dos caminhos. Tudo conflui, tudo se toca e se atravessa. E essa confluência é justamente o oposto do gesto colonial, que precisa cortar, classificar, compartimentar, nomear e mandar.
A cabeça moderna gosta de departamentos e esta obra, trabalha por atravessamentos. E isso, pra mim, é uma das suas maiores potências. Não se organiza para caber na pedagogia confortável da denúncia liberal. Ele não quer apenas que eu veja uma injustiça e saia dali com a consciência moral levemente inquieta. Ele quer mais, quer que a gente reconheça que o que está sendo atacado não é só a posse da terra, mas uma trama inteira de coexistências. Um modo de vida em que a terra não foi totalmente arrancada de sua condição de vínculo. Um modo de vida em que ainda há reciprocidade. Em que ainda há escuta em que ainda há mundo para além da mercadoria.
Saí do filme com a impressão de que o canto, ali, tem uma função ao mesmo tempo estética, política e cosmológica. Estética, porque dá forma sensível à experiência do território. Política, porque recusa o silenciamento que o colonialismo precisa impor para transformar tudo em administração. Cosmológica, porque atualiza uma rede de presenças que a racionalidade moderna não consegue enxergar sem antes ridicularizar ou reduzir. A modernidade, no fundo, sonha com terras mudas que são mais fáceis de negociar, de explorar e de devastar. O silêncio interessa ao poder. Uma terra silenciosa cabe melhor numa planilha, numa concessão, numa lógica de mercado. O filme rompe com isso. Ele devolve à terra sua ressonância. Ou, talvez mais precisamente, ele nos devolve a possibilidade de perceber que a terra nunca deixou de ressoar. Quem se ensurdeceu fomos nós.
Rever nũhũ yãg mũ yõg hãm: essa terra é nossa! depois dessas leituras que nascem das águas, das margens e das insistências do lado de cá do Atlântico foi, para mim, também rever meu próprio sentido de escuta. Saí do filme menos interessado em interpretá-lo do que em permanecer dentro daquilo que ele faz chapar. E o que ele faz é isso: a prova de que a terra, mesmo golpeada, ainda não se rendeu à linguagem do invasor. A prova de que o território continua sendo mais do que superfície. A prova de que o canto segue sendo uma forma de presença, de memória e de permanência.
O que me devolve não é apenas a imagem de uma terra em disputa. É o som de um mundo que insiste. E talvez seja exatamente isso que mais assusta o capitalismo: não apenas a denúncia do crime, mas a sobrevivência de formas de vida que continuam escapando à gramática da mercadoria, da propriedade e do lucro. Porque o que está em jogo ali não é só uma questão identitária, ambiental ou cultural, como gostam de resumir alguns discursos domesticados. O que está em jogo é também luta de classes, onde a exploração da terra e a exploração dos povos caminham juntas, de mãos dadas com a mesma máquina histórica de espoliação. O capitalismo, em sua fome sem fim, precisa calar a terra para transformá-la em ativo, precisa romper os vínculos para transformar tudo em mercadoria, precisa destruir mundos para seguir chamando destruição de progresso.
Por isso, escutar esse canto neste filme é também escutar uma recusa. Uma recusa ao mundo administrado pelo lucro. Uma recusa à lógica que transforma rio em dinheiro, floresta em estoque, território em propriedade e gente em excedente. Mas é também mais do que recusa, é o anúncio de que a construção de um mundo novo não virá do aprofundamento dessa ordem apodrecida, e sim de sua superação. Não de um capitalismo com rosto humano, mas da reinvenção radical de nossas formas de viver, produzir, repartir e existir com a terra e entre nós. Enquanto a terra cantar, seguirá cantando também a impossibilidade de eternizar este mundo de cercas, lucro e ruína. E talvez aí resida a força mais funda do filme: lembrar que há lutas que não defendem apenas a sobrevivência dentro da barbárie, mas anunciam, desde já, a necessidade histórica de sua superação.
O documentário nũhũ yãg mũ yõg hãm: essa terra é nossa! está disponível na Embaúba Play e com acesso gratuito.


