Rádio e agronejo
A construção sonora da hegemonia rural neoliberal
Há alguns anos, a paisagem sonora do rádio brasileiro foi recolonizada por uma outra ideia: a de que o campo é rico, moderno, feliz e vitorioso. Chega em forma de refrão, caminhonete, chapéu, gado de raça, cerveja gelada, festas de peão e uma vida que não conhece dívida, despejo, seca, veneno ou conflito. O sertanejo que hoje domina grande parte da programação radiofônica não fala apenas de amor, dor de cotovelo ou diversão. Em sua versão mais explícita, o agronejo, fabrica uma imagem de país em que o agronegócio deixou de ser apenas um setor econômico para se tornar uma identidade moral de quem produz é forte, quem possui terra merece admiração e quem acumula, venceu.
De longe quero apontar que toda música sertaneja é propaganda, nem de reduzir milhões de ouvintes a vítimas passivas de uma manipulação calculada. A música popular não funciona desse modo. Há prazer, memória, dança, afeto, identificação regional e outras formas imprevisíveis de escuta, mas não posso ignorar que há toda uma infraestrutura por trás do que vira hit, sobretudo a partir desse modelo de concessão que temos no Brasil. Hoje, uma música não se torna inevitável porque simplesmente encontrou o coração do povo, ela precisa de empresário, jabá, divulgação, show, patrocínio, algoritmo, emissora, locutor, festa, exposição agropecuária, sorteio, publicidade e repetição.
Antes de chegar na nossa orelha, ele atravessa um mercado
O rádio no Brasil é uma das máquinas mais antigas e eficientes dessa travessia. Pode parecer estranho insistir nisso numa época em que o algoritmo organiza os hábitos de escuta e as redes sociais lançam artistas em poucas horas, mas o rádio segue exercendo algo decisivo: ele dá corpo local à música, uma faixa toca no carro, no comércio, no posto de gasolina, na oficina, no trabalho, no bar, na cozinha de casa ... e não chega apenas como escolha individual numa plataforma, chega como ambiente. O locutor apresenta, comenta, anuncia o show de sábado, liga o artista a uma exposição agropecuária da cidade, sorteia ingressos, chama o ouvinte pelo nome e transforma aquela canção em parte da rotina.
É por isso que a presença maciça do sertanejo nas rádios não pode ser lida somente como espelho do gosto popular, o veículo também produz gosto, ou pelo menos organiza as condições em que determinado gosto se torne visível, familiar e dominante. Em 2017, um levantamento noticiado pelo G1 indicou que o sertanejo respondia por 74% das músicas mais executadas em uma parada radiofônica, enquanto as listas do YouTube exibiam uma distribuição de gêneros mais variada. Essa diferença é reveladora: a programação das emissoras não apenas acompanha aquilo que já circula, ela pode concentrar a escuta e fabricar a impressão de que só existe um som possível para aquele horário e naquelas regiões.
O campo que não aparece
No campo brasileiro, na música sertaneja contemporânea, tornou-se frequentemente um lugar sem conflito e a terra já não aparece como questão agrária, como disputa por sobrevivência, por terra, como expulsão, como memória de migração ou como promessa. Ela aparece como empresa, patrimônio, palco de ostentação; a fazenda é cenário de uma vitória individual exibida em caminhonetes, animais caros e festas gigantescas. Esse deslocamento é profundo… quando a terra deixa de ser percebida como problema histórico e passa a ser tratada como prova de sucesso, a concentração fundiária se torna invisível. A ideia sobre quem trabalha e quem possui dá lugar à celebração de quem venceu e a questão deixa de ser a distribuição desigual da riqueza e passa a ser a habilidade individual para conquistá-la.
O agronegócio investe em produtos culturais e estratégias comunicacionais para construir hegemonia, para fazer seus interesses particulares parecerem interesse de todos e o agronejo se encaixa nessa operação porque transforma uma narrativa econômica em experiência. Não é preciso assistir a uma propaganda institucional dizendo que o agro é moderno e indispensável.
É só cantar uma música que associe fazenda, riqueza, liberdade e prazer
As letras e imagens desse repertório ensinam uma forma de olhar para o mundo, o sucesso aparece como merecimento e o patrão aparece como trabalhador exemplar. A riqueza se torna resultado de coragem e esforço, o campo se torna uma vitrine de tecnologia e consumo. Em vez de uma sociedade marcada por disputas, há uma festa permanente em que todos podem vencer, desde que tenham disposição para empreender a si mesmos.
A história da música no rádio brasileiro é uma história de negociação. A execução de uma faixa nunca dependeu somente de sua qualidade ou de sua aceitação espontânea. Sempre houve divulgadores, gravadoras, empresários, relações pessoais, campanhas comerciais e disputas por espaço. A antiga prática do jabá, em que divulgadores insistiam junto às emissoras para inserir uma música na programação, foi sendo transformada por modelos mais centralizados de negociação, promoções e investimentos em divulgação.
Nem toda música tocada no rádio é comprada e tampouco toda rádio sertaneja seja automaticamente propriedade ou porta-voz do agronegócio. Essa seria uma simplificação tão leviana quanto a propaganda que quero criticar. O que gostaria que percebessem é que as emissoras operam em um mercado, ou seja, quando a receita publicitária se fragiliza, quando a audiência se fragmenta e quando a concorrência digital aumenta, espaços de programação, ações promocionais, patrocínios e parcerias ganham um outro valor, ainda maior. Quem possui capital para financiar eventos, anunciar com frequência e movimentar redes regionais tem mais condições de influenciar a paisagem cultural de uma cidade.
É nesse ponto que o rádio encontra o agronegócio
Não necessariamente numa compra direta e visível de emissoras, mas numa trama de interesses que passa por prefeituras, anunciantes, feiras, rodeios, leilões, concessionárias, cooperativas, empresas de insumos, shows e campanhas locais. A rádio anuncia a exposição agropecuária; o artista sertanejo é atração principal, o dinheiro público patrocina, o público comparece, a emissora transmite, entrevista, sorteia e celebra. A economia se converte em entretenimento e o entretenimento devolve à economia uma imagem de prestígio.
A festa de peão hoje é talvez o retrato mais claro desse circuito. Nela, boi, empresa, palco, bebida, rádio e música se misturam até que pareçam parte de uma mesma experiência comunitária. A publicidade deixa de parecer publicidade porque vem embalada em celebração. O artista deixa de ser somente cantor porque se torna rosto de uma forma de vida e o agronegócio deixa de ser uma estrutura econômica para aparecer como cultura popular.
A trilha sonora da propriedade
Há uma diferença entre cantar a vida rural e cantar a propriedade como destino. A primeira pode carregar afeto, contradição, memória e dor. A segunda tende a transformar a terra em medalha. O agronejo se organiza frequentemente em torno desta segunda figura: a da riqueza rural como triunfo, uma mistura de campo e consumo que conversa tanto com o proprietário quanto com quem, vivendo na cidade, deseja participar simbolicamente daquele universo. A figura do agroboy resume bem esse imaginário. Ela é menos uma descrição social precisa do que um personagem: jovem, masculino, proprietário ou aspirante a proprietário, cercado por veículos, animais, bebida, festa e sinais de poder. Seu mundo parece não ter trabalhadores, apenas vencedores; não tem conflito, apenas competição; não tem desigualdade, apenas aqueles que ainda não chegaram lá.
Um jeito sutil e neoliberal de narrar o campo que não precisa apresentar conceitos econômicos em suas letras, mas forjar um tipo de sujeito ideal que transforma tudo em investimento: a terra, o corpo, o carro, a imagem, o relacionamento e a festa. Ele não se reconhece como parte de uma coletividade entendida pelas relações de classe, se reconhece como empresa de si mesmo. A força dessa narrativa está em sua simplicidade. Ela produz um país fácil de amar porque elimina suas fraturas. O agro alimenta o mundo, o produtor trabalha, o interior prospera, a riqueza é merecida. Todo o resto, concentração de terras, violência no campo, trabalho análogo a escravidão, envenenamento, expulsão de comunidades, destruição ambiental, é empurrado para fora da canção e não porque não existe, mas é porque atrapalha o refrão.
Rádio como território
O rádio ainda possui algo que nenhuma playlist reproduz, a presença territorial. Uma emissora fala com uma cidade, nomeia bairros, divulga festas, entrevista políticos e empresários, organiza campanhas, transmite shows e se mistura ao cotidiano de uma região. Em cidades do interior e em áreas fortemente ligadas à economia agropecuária, essa proximidade transforma a rádio em uma praça sonora, onde economia, lazer e pertencimento se encontram, e é nesse território que o agronejo ganha densidade.
A mesma música que circula nacionalmente pode, numa rádio local, ser apresentada como expressão de uma identidade regional, não é somente um hit, é a música do rodeio, da feira, da cidade que cresce, da fazenda que dá emprego, da marca que patrocina o programa e da prefeitura que patrocina. Assim, uma narrativa produzida por grupos econômicos fortes adquire aparência de fala comunitária e na maioria das vezes, financiado por dinheiro público, sem editais, sem consulta pública, sem levar em conta as tradições do território e tampouco de suas comunidades tradicionais.
Quando o agronegócio se apresenta como cultura local, questioná-lo pode parecer um ataque à própria cidade, ao interior ou à vida rural. Críticas à concentração de terra passam a ser recebidas como desprezo pelo produtor; denúncias ambientais, como hostilidade ao trabalho; defesa da reforma agrária, como desconhecimento do país real e esse modelo, ajuda a tornar essa confusão emocionalmente eficaz.
O agronejo é um braço cultural do agronegócio, capaz de promover uma imagem positiva do setor e de deslocar suas contradições sociais e ambientais. A expressão pode soar excessiva se for usada para explicar todo o sertanejo, mas se torna precisa quando observamos a parte do gênero que transforma deliberadamente o agronegócio em tema, marca, orgulho e modelo de país.
Toda essa crítica não é uma ode ao fim da música sertaneja e nem supor que a música popular precisa obedecer a uma cartilha política. O que ela sugere é ouvir o que uma canção celebra e o que ela pode deixar de fora. Ouvir rádio não como aparelho neutro, mas como espaço em que interesses, afetos e disputas se tornam som. Talvez a questão mais importante talvez não seja se o agro tomou conta da música e sim, como determinadas redes econômicas conseguem transformar seu projeto de mundo em trilha sonora cotidiana, quem escolhe o que será repetido, que empresas sustentam os eventos, quais artistas encontram espaço, que tipo de campo se torna visível nas ondas do rádio e qual campo é silenciado.
O rádio planta refrões, imagens, valores, desejos e quando uma mesma canção atravessa a cidade todos os dias, ela não ocupa apenas o ar, ocupa a nossa imaginação.

